Physics of Gridlock - Pain of Salvation

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Graves

Entre muros de razões,
entre madeixas de cabelo desgrenhado,
entre dúvidas e questões,
entre pele e fogo,
entre falsas interrogações,
entre olhos vidrados,
entre medos e absolvições,
entre bocas coladas,
entre furiosas redenções,
entre suores e febres,
entre breves hesitações,
entre a selvática entrega,
entre a morte e as monções.
Entre nós.

"The Great Gig in the Sky" , Dark Side of the Moon , Pink Floyd

terça-feira, 21 de junho de 2011

Valeriana

Se não te sonho,
livre na minha pele,
não quero dormir.
Se o teu sabor
não me mata a sede,
continuo a resistir.
Se o teu nome
não ecoa pela noite,
continuo a ouvir.
Se não te vejo
onde és só minha,
não quero ir.

"Tu e somente tu" , Quarteto Moderno

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Primertango

Nunca dancei.
Nunca dei corpo
ao ser por ser,
ao sonhar por fazer.
Não fiz meu mundo
girar em si mesmo,
por fundo ou profundo
prazer que seja.

Agora entendo
nunca ter dançado.

Não te tive minha,
mão na mão,
em ti meu céu,
em mim teu chão.

Meu primeiro tango não é meu.

"Vuelvo al Sur", La Sirena, Teresa Salgueiro (original Astor Piazzolla)


terça-feira, 7 de junho de 2011

Conteúdo

Deixa-me falar-te de mim.
Não me ouças,
não me ouças,
deixa-me falar,
falar sem fim.
Esquece que a minha palavra sou eu.
Não te esqueças,
não te esqueças,
tira o sentido ao verbo,
verbalizar-me teu.
Sente o frio no meu peito.
Se te queima,
se te queima,
corre daqui,
Corre a direito.
Vê-me no outro lado do teu mundo.
Fecha os olhos,
fecha os olhos,
espero-te aqui,
aqui no fundo.

"Faust Arp" , In Rainbows , Radiohead

sábado, 28 de maio de 2011

Vivir

É morrer de novo,
e de novo erguer.
Ao vazio anuir,
ao mundo acolher,
em mudas cores
mudadas,
feridas, dores
curadas
e ser.
Sê-lo sempre,
sempre.
Ser.

É viver de novo,
de novo arder.
Ao fogo dar
fogo ao fogo,
par em par,
arder sem parar,
respirar,
fogo lento,
morte e ar.

Ser do vento,
voltar a navegar.

"Hex Omega" , Watershed, Opeth

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Diástole

Minha voz sem terra
sangrei.
Meu corpo cego
guiei,
até meu chão,
e parei.
Cego me vi
e sonhei,
olhos a Deus,
fechei.
Abri coração,
e parei.

"Cantigas do Maio", Carlos do Carmo&Bernardo Sassetti

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Da trincheira

Não te sei amar na guerra.
Não sei morrer nem sei ceder,
palmo a palmo, a minha terra.
Não sei ouvir de que falas.
Não sei cessar o fogo ou dar
alma e corpo e fogo ás balas.
Não sei enterrar o machado,
não sei hastear bandeira, não dar
o teu castelo por tomado.

Não sei travá-la, a guerra.
Não sei parar a dor ou o ardor.
Não sei sequer se é terra
ou uma noite de rancor
que me espera.
O que eu sei, amor,
é que te não sei amar na guerra.

"After", After, Ihsahn

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Estrangeiro

Tocaste-lhe o coração,
pomba sem asas.
Anteu sem quinhão,
sem terra por mãe,
ou pó por pai.
Teu ardor é luz,
é fogo sem vintém,
é chama por trazer
à morte que nos vive,
à vida que nos morre.
Teu sopro é brisa,
a tempestade dos céus,
que te anuncia e profetiza,
é a tua palavra final,
muito antes do fim.
Teu sangue e tuas mãos
são teu nome e teu segredo,
teus erros vãos,
tua essência dada,
tua presença nunca tomada.

"Native Sense" , Native Sense , Chick Corea

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Sede

A seda leve pesou.
O linho branco manchou.
A sede breve morreu.
O sangue frio correu.

O sangue quente gelou
e o amor não morreu.
O linho branco rasgou
e o medo não sou eu.
E a sede não me aquece.
E o fogo não arrefece.
E o amor não morreu.
O amor arrefeceu.

"Nunca parto inteiramente" , Assobio da Cobra, Manuel Paulo/Manel Cruz

Escapismo

Sem arder em chama morta,
Sem perder a calma e a sorte,
Sem passar por essa porta,
Sem mudar o nome ao fogo,
Sem chamar por ti num grito,
Sem gritar por ti sendo mudo,
Sem parar de ser teu porto,
Sem te abandonar o corpo.

Faço de ti meu passado.
Deixo para mim meu futuro.

"Como seria" , Assobio da Cobra, Manuel Paulo/Camané

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Esta era a altura
em que os meus braços
se fechavam em torno dos céus,
em busca do sol.

Era o momento
em que os meus passos
ecoavam no mundo,
à espera dos teus.

Era o tempo
em que os traços
soltavam a tua imagem
desenhada de um sonho.

Era o segundo
em que os espaços
se quebravam entre nós,
como uma viagem mental.

Esta era a hora
em que os escassos
medos gritavam em mim,
como um prenúncio do fim,
que não chegou.

"Pode alguém ser quem não é" , Irmão do meio , Sérgio Godinho & Teresa Salgueiro

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Véu

Demos as mãos no escuro,
enquanto a luz não nos amparou.
Anunciámos ao mundo
que silêncio é este que se gerou,
se finou e se refez,
que grito mudo gemido
ardeu no fundo, desta vez,
e se apagou num estrondo
mais que profundo.
Fechámos os olhos á luz,
quando a escuridão nos deixou.
Guardámos do mundo
que voz é esta que nunca soou,
se ouviu ou se fez,
que ideia, sonho se formou,
voou e não se desfez,
e voltou num segundo
pouco mais que efémero.

"The blue marble and the new soul", The Obsidian Conspiracy, Nevermore

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O segundo

Vi-te arder no meu colo,
acender-me o erguer do sol.
Soube-te renascida
no mar a prazo da minha boca,
adormecida na minha voz rouca
sussurrada num canto de ti.
Abri-te os olhos na escuridão,
e dei-te a mão
pelas paisagens da tua pele.
Falei-te de mim,
preso num olhar teu.
Ri-me de mim,
a tentar resistir-te ao céu.
Desisti, prostrado,
de fugir, deitado
a ouvir-te sonhar.

Será que tentei?

"Chega de saudade", Inédito, Tom Jobim

segunda-feira, 1 de março de 2010

Calafrio

E sou eu gelo.
Sou gelo e não quero sê-lo,
nem tê-lo,
nem dentro
nem á flor do olhar.

E sou eu distância.
Sou distância na vã ânsia
de estar perto,
tão perto,
sem de mim me mover.

E sou eu morte.
Sou eu morte sem norte,
nem forma
de na minha calma
o encontrar.

"Coil" , Watershed , Opeth

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Força fraca

Cedo no fino frio
do sono fugido,
abandonado ao cio
desgovernado e sofrido
de amor, de amar.

Tarde na fina arte
de ser sentido,
pele, tudo e parte,
segredo suado, vivido
de arder, de queimar.

Agora na fina morte,
no ascender tecido,
dor e ar sem sorte,
sem dono e sem destino
senão tu.
Senão tu.

"Shine on you crazy diamond" , Wish you were here , Pink Floyd

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Sonho feito

Fazer.

Das semânticas, silêncios.
Das curvas, entre-curvas,
Dos contra-sensos, sentidos.
Dos meandros, a direito.

Abrir.

Das veias, ar e vida.
Dos sonhos, flores ao sol.
Dos céus, luz e chão.
Da terra, fogo na minha mão.

Sonhar.


"Abandoner" , Insurgentes , Steven Wilson

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Óbvio

Não sei se para sempre
ou eternamente.
Não sei se a medo
ou sempre em frente.
Não sei se ardemos
ou se o calor nos pertence.

Soube-o sempre, contudo.
Soprado nas palavras.
Sorrido na luz.
Dito por enigmas
no teu gesto
mais meu.

"Weakness" , Damnation, Opeth

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Pretérito

Recordar os dias,
nas páginas rasgadas
de um calendário
de cantos dobrados.
Memórias amareladas,
sons sem timbre,
sonhos guardados
nos olhares trocados.

Lembrar as cores
escondidas no toque
da pele, no frio,
no tropel sem tino.

Sentir no corpo
o tempo, sentir,
sorver, agarrar.
Querer guardar,
não largar,
não querer andar
nem prosseguir.
Pendurar de novo,
repetir, repetir,
até ao fim.

"A Red October", Dreams where we die, Best Before Full Moon

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Neblina

Envolvi-te foz
em bruma baça,
com a seca voz
do gelo das nuvens.
Parei-te as correntes
do rio de ser,
com o olhar dos ventos,
do profundo do leito
ao branco do céu.
Gelei-te as ondas
de intruso mar.
Abri-te as redondas
íris, pálidas, a cegar,
para sempre encerradas,
pelo meu sol por brilhar,
reflexo de amar.
Apartei-te os braços
do meu corpo etéreo,
sem lutar, sem forçar,
apenas por não lá estar,
realmente.

"Gravity eyelids" , In Absentia , Porcupine Tree

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Madrugada

Pele que arde,
só, sentida,
separada, benvinda,
fogo que não finda.
Fome que grita,
dói, padece,
consome
e não desaparece.
Sede de ser,
na boca, no peito,
anoitecer,
respirar desfeito.
Soprar de vida,
vento, paixão,
solidão desabrida,
sofreguidão
de despedida.
Escombros, destroços,
ruir em surdina.
Maldição de noite,
que termina.
Morrer de madrugada
nos braços da sorte,
sorrir na morte,
e amá-la ainda
pela alvorada.


"Adiós Noniño" , Astor Piazzolla