Li-te sobre um homem.
Um velho homem,
cansado,
gasto,
temperado,
exausto,
meio morto,
todo vivo de sede.
Li-te sobre um homem,
de branco na têmpora,
de sangue na guelra,
de asas nos sonhos,
negras asas,
e sol na pele.
Li-te, falei-te, contei-te.
Li-te sobre mim.
E não percebeste.
"Softly she cries" , Road Salt II, Pain of Salvation
Physics of Gridlock - Pain of Salvation
terça-feira, 24 de julho de 2012
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Da fadiga
Estou cansado de palavras.
Sobretudo Portuguesas,
somente Portuguesas.
Cansado de não sentir,
quando tão sentido
tenho sido.
Cansado de te dizer
que quero,
quando prefiro ter,
nada dizer
e o que espero
não tardar.
Cansado de usar vocábulos,
de inventar parábolas,
de me dizer a mim mesmo
que o marasmo
também é mar de marinheiro.
Cansado de saudade,
de fado, de argumentos.
Estou cansado.
Quero apenas o que é meu.
"Fado do ladrão enamorado", Rui Veloso
Sobretudo Portuguesas,
somente Portuguesas.
Cansado de não sentir,
quando tão sentido
tenho sido.
Cansado de te dizer
que quero,
quando prefiro ter,
nada dizer
e o que espero
não tardar.
Cansado de usar vocábulos,
de inventar parábolas,
de me dizer a mim mesmo
que o marasmo
também é mar de marinheiro.
Cansado de saudade,
de fado, de argumentos.
Estou cansado.
Quero apenas o que é meu.
"Fado do ladrão enamorado", Rui Veloso
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Da frequência das notícias
Escrevo, pouco pensando.
Escrevo pouco, pensando.
Escrevo sempre desconfiando,
Escreveria sempre, desconfiando;
Desconfio tanto, contudo,
que escrevo pouco,
porque desconfiando, penso.
E pensando, desconfio
sempre, sempre do pensar.
Sentindo, penso pouco.
Desconfio na medida do ser,
penso um pouco rouco,
enferrujado e sem querer.
Crio e recrio o espontâneo,
Esqueço o que planeio,
e saio para comprar tabaco
que nunca fumei,
sem saber quando voltarei.
________________________________________________
Escrever é ter saudade. De mim, das palavras, de ser só, de ter saudade.
Estou em viagem, e este é um postal.
Não tenho saudade, mas as palavras que foram a minha única família em momentos únicos precisam de saber que estou vivo para elas.
"Arte quis ser vida" , Nada é Possível , Supernada
Escrevo pouco, pensando.
Escrevo sempre desconfiando,
Escreveria sempre, desconfiando;
Desconfio tanto, contudo,
que escrevo pouco,
porque desconfiando, penso.
E pensando, desconfio
sempre, sempre do pensar.
Sentindo, penso pouco.
Desconfio na medida do ser,
penso um pouco rouco,
enferrujado e sem querer.
Crio e recrio o espontâneo,
Esqueço o que planeio,
e saio para comprar tabaco
que nunca fumei,
sem saber quando voltarei.
________________________________________________
Escrever é ter saudade. De mim, das palavras, de ser só, de ter saudade.
Estou em viagem, e este é um postal.
Não tenho saudade, mas as palavras que foram a minha única família em momentos únicos precisam de saber que estou vivo para elas.
"Arte quis ser vida" , Nada é Possível , Supernada
Etiquetas:
declaração de intenções,
Lugares incomuns,
Souvenirs
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Grilhões
Deixo as correntes na corrente.
As amarras no cais.
Digo aos céus, imprudente,
"ao chão, nunca mais".
Faço adeus
a quem passa,
caminhos meus,
contra-mão e graça,
sorte e "vemo-nos nessa praça".
É tempo.
Toca a andar.
Escape, Peixe
As amarras no cais.
Digo aos céus, imprudente,
"ao chão, nunca mais".
Faço adeus
a quem passa,
caminhos meus,
contra-mão e graça,
sorte e "vemo-nos nessa praça".
É tempo.
Toca a andar.
Escape, Peixe
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Temporário
Nem o cedo é tarde, nunca foi.
Foste sempre a minha urgência,
que sempre quis demorar,
sem nunca abrandar.
Nem o tarde é cedo, nunca será.
O tempo é minha insolência,
sempre vã, negra, cega e sem perdão
que nunca pára quando deve parar.
"Suor e Fantasia" , Quinteto Tati
Foste sempre a minha urgência,
que sempre quis demorar,
sem nunca abrandar.
Nem o tarde é cedo, nunca será.
O tempo é minha insolência,
sempre vã, negra, cega e sem perdão
que nunca pára quando deve parar.
"Suor e Fantasia" , Quinteto Tati
Etiquetas:
atracções,
Dor no Jazz,
Eternidade,
Queixumes
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Astrolábio Cabrestante
Devia ter-me dado ao mar, naquela noite. Talvez tivesse percebido mais cedo para que lado me levavam as estrelas e me soprava o vento. Para que fado me talhava o canto. Para que medo me falhava o pranto.
Devia ter seguido as ondas, a fúria ao desbarato. Devia ter sentido em meu corpo nu a bravata de ser guerreiro e navegador, o frio da água, a vontade de nadar contra a corrente, nunca mais ver terra minha.
Devia ter feito o que senti, cantar sem medo meu sentimento vão. Devia ter ignorado o frágil temor do que ficou para trás, devia ter bradado pátria ingrata, se por mim me sagrei e fui herói.
Devia ter-te pedido o mundo, quando tão pouco dele tinha visto. Levar-me até ao profundo dos mares, ser meu próprio guia, guiar-te por minha mão temperada no ferro da idade.
"Pode alguém ser quem não é" , Irmão do Meio , Sérgio Godinho
Devia ter seguido as ondas, a fúria ao desbarato. Devia ter sentido em meu corpo nu a bravata de ser guerreiro e navegador, o frio da água, a vontade de nadar contra a corrente, nunca mais ver terra minha.
Devia ter feito o que senti, cantar sem medo meu sentimento vão. Devia ter ignorado o frágil temor do que ficou para trás, devia ter bradado pátria ingrata, se por mim me sagrei e fui herói.
Devia ter-te pedido o mundo, quando tão pouco dele tinha visto. Levar-me até ao profundo dos mares, ser meu próprio guia, guiar-te por minha mão temperada no ferro da idade.
"Pode alguém ser quem não é" , Irmão do Meio , Sérgio Godinho
Etiquetas:
Brumas,
Dor no fado,
Eternidade,
Lugares incomuns
domingo, 11 de setembro de 2011
Fugata Bravatta
Escutei a glória divina
do teu respirar descompassado,
como um grito fechado
há eras sem conta
num peito saudoso
de arquejar,
de se esquecer,
de respirar.
Mais um passo,
difícil, forte, de morte
de teatro,
e tudo estaria acabado.
O meu corpo deixaria o teu,
o teu resistir-me-ia,
o vazio chegaria ao céu,
o violino choraria.
Mas não aconteceu,
ainda não.
Ainda tenho a tua mão,
ainda te posso levar,
os teus olhos conspiram fugas
por consumar,
e eu respirei-te a pele
em tantos passos mudos,
que os não consigo contar.
E em todos eles,
te sonhei tomar.
É contratempo,
é o fim,
é o acorde final do desconcerto.
Terminamos de respirar ofegante
entregue um ao outro,
com os teus lábios
a clamar desejo,
e eu morto por roubar um beijo,
que me pertence mais que a ninguém.
Mas estamos sós, e acabou a música. Mas não o tango.
"Primavera Porteña" , Piazzolla Seasons, Gidon Kremer & Kremerata Baltica (original Astor Piazzolla)
do teu respirar descompassado,
como um grito fechado
há eras sem conta
num peito saudoso
de arquejar,
de se esquecer,
de respirar.
Mais um passo,
difícil, forte, de morte
de teatro,
e tudo estaria acabado.
O meu corpo deixaria o teu,
o teu resistir-me-ia,
o vazio chegaria ao céu,
o violino choraria.
Mas não aconteceu,
ainda não.
Ainda tenho a tua mão,
ainda te posso levar,
os teus olhos conspiram fugas
por consumar,
e eu respirei-te a pele
em tantos passos mudos,
que os não consigo contar.
E em todos eles,
te sonhei tomar.
É contratempo,
é o fim,
é o acorde final do desconcerto.
Terminamos de respirar ofegante
entregue um ao outro,
com os teus lábios
a clamar desejo,
e eu morto por roubar um beijo,
que me pertence mais que a ninguém.
Mas estamos sós, e acabou a música. Mas não o tango.
"Primavera Porteña" , Piazzolla Seasons, Gidon Kremer & Kremerata Baltica (original Astor Piazzolla)
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Graves
Entre muros de razões,
entre madeixas de cabelo desgrenhado,
entre dúvidas e questões,
entre pele e fogo,
entre falsas interrogações,
entre olhos vidrados,
entre medos e absolvições,
entre bocas coladas,
entre furiosas redenções,
entre suores e febres,
entre breves hesitações,
entre a selvática entrega,
entre a morte e as monções.
Entre nós.
"The Great Gig in the Sky" , Dark Side of the Moon , Pink Floyd
entre madeixas de cabelo desgrenhado,
entre dúvidas e questões,
entre pele e fogo,
entre falsas interrogações,
entre olhos vidrados,
entre medos e absolvições,
entre bocas coladas,
entre furiosas redenções,
entre suores e febres,
entre breves hesitações,
entre a selvática entrega,
entre a morte e as monções.
Entre nós.
"The Great Gig in the Sky" , Dark Side of the Moon , Pink Floyd
terça-feira, 21 de junho de 2011
Valeriana
Se não te sonho,
livre na minha pele,
não quero dormir.
Se o teu sabor
não me mata a sede,
continuo a resistir.
Se o teu nome
não ecoa pela noite,
continuo a ouvir.
Se não te vejo
onde és só minha,
não quero ir.
"Tu e somente tu" , Quarteto Moderno
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Primertango
Nunca dancei.
Nunca dei corpo
ao ser por ser,
ao sonhar por fazer.
Não fiz meu mundo
girar em si mesmo,
por fundo ou profundo
prazer que seja.
Agora entendo
nunca ter dançado.
Não te tive minha,
mão na mão,
em ti meu céu,
em mim teu chão.
Meu primeiro tango não é meu.
"Vuelvo al Sur", La Sirena, Teresa Salgueiro (original Astor Piazzolla)
terça-feira, 7 de junho de 2011
Conteúdo
Deixa-me falar-te de mim.
Não me ouças,
não me ouças,
deixa-me falar,
falar sem fim.
Esquece que a minha palavra sou eu.
Não te esqueças,
não te esqueças,
tira o sentido ao verbo,
verbalizar-me teu.
Sente o frio no meu peito.
Se te queima,
se te queima,
corre daqui,
Corre a direito.
Vê-me no outro lado do teu mundo.
Fecha os olhos,
fecha os olhos,
espero-te aqui,
aqui no fundo.
"Faust Arp" , In Rainbows , Radiohead
sábado, 28 de maio de 2011
Vivir
É morrer de novo,
e de novo erguer.
Ao vazio anuir,
ao mundo acolher,
em mudas cores
mudadas,
feridas, dores
curadas
e ser.
Sê-lo sempre,
sempre.
Ser.
É viver de novo,
de novo arder.
Ao fogo dar
fogo ao fogo,
par em par,
arder sem parar,
respirar,
fogo lento,
morte e ar.
Ser do vento,
voltar a navegar.
"Hex Omega" , Watershed, Opeth
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Diástole
Minha voz sem terra
sangrei.
Meu corpo cego
guiei,
até meu chão,
e parei.
Cego me vi
e sonhei,
olhos a Deus,
fechei.
Abri coração,
e parei.
"Cantigas do Maio", Carlos do Carmo&Bernardo Sassetti
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Da trincheira
Não te sei amar na guerra.
Não sei morrer nem sei ceder,
palmo a palmo, a minha terra.
Não sei ouvir de que falas.
Não sei cessar o fogo ou dar
alma e corpo e fogo ás balas.
Não sei enterrar o machado,
não sei hastear bandeira, não dar
o teu castelo por tomado.
Não sei travá-la, a guerra.
Não sei parar a dor ou o ardor.
Não sei sequer se é terra
ou uma noite de rancor
que me espera.
O que eu sei, amor,
é que te não sei amar na guerra.
"After", After, Ihsahn
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Estrangeiro
Tocaste-lhe o coração,
pomba sem asas.
Anteu sem quinhão,
sem terra por mãe,
ou pó por pai.
Teu ardor é luz,
é fogo sem vintém,
é chama por trazer
à morte que nos vive,
à vida que nos morre.
Teu sopro é brisa,
a tempestade dos céus,
que te anuncia e profetiza,
é a tua palavra final,
muito antes do fim.
Teu sangue e tuas mãos
são teu nome e teu segredo,
teus erros vãos,
tua essência dada,
tua presença nunca tomada.
"Native Sense" , Native Sense , Chick Corea
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Sede
A seda leve pesou.
O linho branco manchou.
A sede breve morreu.
O sangue frio correu.
O sangue quente gelou
e o amor não morreu.
O linho branco rasgou
e o medo não sou eu.
E a sede não me aquece.
E o fogo não arrefece.
E o amor não morreu.
O amor arrefeceu.
"Nunca parto inteiramente" , Assobio da Cobra, Manuel Paulo/Manel Cruz
Escapismo
Sem arder em chama morta,
Sem perder a calma e a sorte,
Sem passar por essa porta,
Sem mudar o nome ao fogo,
Sem chamar por ti num grito,
Sem gritar por ti sendo mudo,
Sem parar de ser teu porto,
Sem te abandonar o corpo.
Faço de ti meu passado.
Deixo para mim meu futuro.
"Como seria" , Assobio da Cobra, Manuel Paulo/Camané
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Esta era a altura
em que os meus braços
se fechavam em torno dos céus,
em busca do sol.
Era o momento
em que os meus passos
ecoavam no mundo,
à espera dos teus.
Era o tempo
em que os traços
soltavam a tua imagem
desenhada de um sonho.
Era o segundo
em que os espaços
se quebravam entre nós,
como uma viagem mental.
Esta era a hora
em que os escassos
medos gritavam em mim,
como um prenúncio do fim,
que não chegou.
"Pode alguém ser quem não é" , Irmão do meio , Sérgio Godinho & Teresa Salgueiro
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Véu
Demos as mãos no escuro,
enquanto a luz não nos amparou.
Anunciámos ao mundo
que silêncio é este que se gerou,
se finou e se refez,
que grito mudo gemido
ardeu no fundo, desta vez,
e se apagou num estrondo
mais que profundo.
Fechámos os olhos á luz,
quando a escuridão nos deixou.
Guardámos do mundo
que voz é esta que nunca soou,
se ouviu ou se fez,
que ideia, sonho se formou,
voou e não se desfez,
e voltou num segundo
pouco mais que efémero.
"The blue marble and the new soul", The Obsidian Conspiracy, Nevermore
sexta-feira, 7 de maio de 2010
O segundo
Vi-te arder no meu colo,
acender-me o erguer do sol.
Soube-te renascida
no mar a prazo da minha boca,
adormecida na minha voz rouca
sussurrada num canto de ti.
Abri-te os olhos na escuridão,
e dei-te a mão
pelas paisagens da tua pele.
Falei-te de mim,
preso num olhar teu.
Ri-me de mim,
a tentar resistir-te ao céu.
Desisti, prostrado,
de fugir, deitado
a ouvir-te sonhar.
Será que tentei?
"Chega de saudade", Inédito, Tom Jobim
Subscrever:
Mensagens (Atom)